Imagem: quadro do pintor italiano Caravaggio, retratando a dúvida de Tomé
Quando criança eu queria ser cientista. Meu sonho era ter um laboratório na área de serviço onde morávamos, num pequeno apartamento no bairro da Vila Belmiro, em Santos. O sonho não se concretizou, primeiro porque os kits de laboratório de brinquedo eram raros e caros naquela época e, segundo, porque minha mãe precisava de espaço para lavar e pendurar roupas!
Quando me converti, cria – e creio – que a Bíblia era a Palavra de Deus. Mas não uma Palavra que significa qualquer coisa. Creio que há linhas de interpretação diferentes, mas isso não significa que se possa fazer a Bíblia dizer qualquer coisa. Há uma crença popular que afirma que “cada um tem a sua interpretação da Bíblia”. Não é bem assim. Há maneiras diferentes de se interpretar, mas algumas delas são inaceitáveis do ponto de vista de um estudo sério do texto bíblico. Por exemplo, é inaceitável dizer que Jesus falou de reencarnação quando disse a Nicodemos que ele precisaria “nascer de novo” (João 3:3).
Ao longo de minha caminhada na fé, tenho colecionado uma série de dúvidas. Minha primeira grande dúvida foi o problema do sofrimento: por que Deus permite o mal? Por que Deus permite que o inocente sofra? Por que Deus permite os abortos e as guerras? Por que uma bala perdida pode atingir e matar uma criança que estava brincando?
Outras dúvidas: como relacionar Deus como Criador e a evolução? Como entender que pessoas que nunca ouviram o evangelho serão condenadas? Por que Deus permite que uma criança míngüe até a morte por inanição na África? Por que Deus permitiu o holocausto?
Tenho aprendido que não precisamos fazer um suicídio intelectual para crer em Deus. Questões científicas e filosóficas podem ter repostas, ainda que incompletas. Nunca entenderemos tudo pelo simples fato de sermos seres finitos em um universo que nunca poderá ser plenamente entendido por nós. Os planos de Deus são incompreensíveis (Romanos 11:33-34).
Também tenho aprendido que ter dúvidas não tem nada a ver com duvidar. Ter dúvidas é questionar nossa compreensão atual das coisas, procurar novas perspectivas ou paradigmas, dar-se a liberdade de dizer que não podemos entender certas coisas, pelo menos por enquanto. Duvidar é fechar-se para Deus, questionar a sua realidade, tornar-se reducionista em nossa visão dEle e do mundo. Um exemplo clássico é Richard Dawkins dizendo que a evolução elimina Deus. Tolice. Há milhares de cientistas sérios que crêem em Deus e que acreditam que Ele usou o processo evolutivo para criar o universo. Mais sábio que Dawkins é nosso conterrâneo João Ubaldo Ribeiro. Veja o que ele disse aqui.
Vou continuar com minhas dúvidas até morrer, procurando sempre entender melhor a realidade e relacioná-la com a Bíblia como Palavra de Deus. Mas me recuso a duvidar porque creio que em Cristo “tudo subsiste” e porque creio que nEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 1:17 e 2:3).


