30/10/2009

Eu tenho dúvidas, mas não duvido


Imagem: quadro do pintor italiano Caravaggio, retratando a dúvida de Tomé

Quando criança eu queria ser cientista. Meu sonho era ter um laboratório na área de serviço onde morávamos, num pequeno apartamento no bairro da Vila Belmiro, em Santos. O sonho não se concretizou, primeiro porque os kits de laboratório de brinquedo eram raros e caros naquela época e, segundo, porque minha mãe precisava de espaço para lavar e pendurar roupas!

Quando me converti, cria – e creio – que a Bíblia era a Palavra de Deus. Mas não uma Palavra que significa qualquer coisa. Creio que há linhas de interpretação diferentes, mas isso não significa que se possa fazer a Bíblia dizer qualquer coisa. Há uma crença popular que afirma que “cada um tem a sua interpretação da Bíblia”. Não é bem assim. Há maneiras diferentes de se interpretar, mas algumas delas são inaceitáveis do ponto de vista de um estudo sério do texto bíblico. Por exemplo, é inaceitável dizer que Jesus falou de reencarnação quando disse a Nicodemos que ele precisaria “nascer de novo” (João 3:3).

Ao longo de minha caminhada na fé, tenho colecionado uma série de dúvidas. Minha primeira grande dúvida foi o problema do sofrimento: por que Deus permite o mal? Por que Deus permite que o inocente sofra? Por que Deus permite os abortos e as guerras? Por que uma bala perdida pode atingir e matar uma criança que estava brincando?

Outras dúvidas: como relacionar Deus como Criador e a evolução? Como entender que pessoas que nunca ouviram o evangelho serão condenadas? Por que Deus permite que uma criança míngüe até a morte por inanição na África? Por que Deus permitiu o holocausto?

Tenho aprendido que não precisamos fazer um suicídio intelectual para crer em Deus. Questões científicas e filosóficas podem ter repostas, ainda que incompletas. Nunca entenderemos tudo pelo simples fato de sermos seres finitos em um universo que nunca poderá ser plenamente entendido por nós. Os planos de Deus são incompreensíveis (Romanos 11:33-34).

Também tenho aprendido que ter dúvidas não tem nada a ver com duvidar. Ter dúvidas é questionar nossa compreensão atual das coisas, procurar novas perspectivas ou paradigmas, dar-se a liberdade de dizer que não podemos entender certas coisas, pelo menos por enquanto. Duvidar é fechar-se para Deus, questionar a sua realidade, tornar-se reducionista em nossa visão dEle e do mundo. Um exemplo clássico é Richard Dawkins dizendo que a evolução elimina Deus. Tolice. Há milhares de cientistas sérios que crêem em Deus e que acreditam que Ele usou o processo evolutivo para criar o universo. Mais sábio que Dawkins é nosso conterrâneo João Ubaldo Ribeiro. Veja o que ele disse aqui.

Vou continuar com minhas dúvidas até morrer, procurando sempre entender melhor a realidade e relacioná-la com a Bíblia como Palavra de Deus. Mas me recuso a duvidar porque creio que em Cristo “tudo subsiste” e porque creio que nEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 1:17 e 2:3).

16/10/2009

O Mês da Danada

Tradicionalmente outubro é o mês em que experimento uma leve depressão. Depois de muitos anos percebi que neste mês fico down. Já pensei e conversei com outras pessoas sobre os possíveis motivos e minha conclusão leiga – já que nunca consultei um psiquiatra – é de que se trata de uma depressão sazonal causada por um longo período de pouca exposição ao sol.

Não, não moro no exterior. Moro na cidade de Caxias do Sul, que amo de coração, cidade natal de minha filha mais velha. Mas ô cidadezinha nublada, fria e chuvosa! Como o inverno se arrasta e teima em não terminar! O calor sofre pra chegar aqui.

O pouco sol, o fim do inverno, algumas frustrações normais que todo ano me acometem (pois em outubro a gente já começa a avaliar o ano e vê o que não foi feito, o que terá que ficar para o ano que vem)...

Em suma, creio que há uma diminuição na produção de serotonina que me deixa levemente desanimado e triste. Há dias em que nem a percebo. Mas há também os dias ruins.

O bom da história é que, como acontecem todos os anos, de repente me dou conta de que outubro acabou-se. E com ele, foi-se a danada.

09/10/2009

Em Defesa de Francisco



“Pregue sempre o evangelho. Se necessário, use palavras” (atribuído a Francisco de Assis)

Depois que ouvi pastores criticarem esta frase de Francisco, decidi escrever um breve comentário.

Alguns dizem, irritados, que Francisco nunca disse tais palavras, pois não há documentos antigos que comprovem tal declaração. Não sou um especialista em Francisco de Assis, não sei se de fato a frase é dele ou se é espúria. Sei que a frase cairia muito bem na boca de Francisco.

Quem conhece um pouco da história de Francisco sabe que o povereto foi inovador. Ao invés de viver como monge, ele ia ao encontro das pessoas nas ruas e vilas. Não vivia isolado (isolou-se mais no final de sua vida), era pregador do evangelho e chegou a ser missionário aos muçulmanos.

Na época o papa, os cardeais e bispos viviam uma vida luxuosa e mundana. O impacto de Francisco se deu pelo contraste entre sua vida de pobreza, alegria, serviço e simplicidade comparada ao luxo e à politicagem do alto clero católico.

É neste contexto que devemos entender a frase: “Pregue sempre o evangelho, se necessário use palavras”. Trata-se de uma frase de efeito e não um conselho para se falar menos do evangelho ou para se pregar o evangelho “apenas com seu testemunho de vida”.

Com certeza o maior mal dos evangélicos hoje em dia é a incoerência entre nosso discurso e nossa prática. As pessoas sequer nos ouvem porque nossa vida é muito pouco ou nada diferente da vida de todo mundo. Somos imorais, gananciosos e fúteis.

Desconfio que, se comparados com Francisco, pregamos muito menos com palavras e vivemos ainda menos com obras o evangelho!

“Pregue sempre o evangelho, se necessário use palavras”.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

08/10/2009

Ninguém pode provar e ninguém pode desprovar



"Do mesmo modo que ninguém pode provar a existência de Deus, ninguém pode desprovar. O método científico não é a única maneira de se abordar a realidade. Ele recusa a chancela de verdade a tudo o que não pode ser submetido à verificação científica. Ou seja, converte a própria incapacidade numa vantagem. Já que não nos é dado conhecer, essa coisa não existe." (do escritor João Ubaldo Ribeiro, sobre ciência e fé)

Fonte: Bravo!